Vida de Galileu - Bertolt Brecht

of 62 /62
5/14/2018 VidadeGalileu-BertoltBrecht-slidepdf.com http://slidepdf.com/reader/full/vida-de-galileu-bertolt-brecht-55a92e47b8b66 1/62

Embed Size (px)

description

BRECHT, Bertolt. Vida de Galileu. In: BRECHT, Bertolt. Teatro completo. v. 6. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999. p. 51-170.

Transcript of Vida de Galileu - Bertolt Brecht

Gesammelte Werke, Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main.

Ttulos dos originais em alemo: Die Gewehre der Frau Carrar, 1957 Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main. Leben des Galilei, 1955, Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main. Mutter Courage and ihre Kinder, 1949, Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main.

Coordenao Geral: Christine Roehrig - Fernando Peixoto Capa: Isabel Carballo Copydesk: Bliana Antoniolli Reviso: Vania Lucia Amato Victor Enrique Pizarro Editorao Eletrnica: Graphium Publicidade e Editora Ltda.

ndice

Dados de catalogao na Publicao Internacional (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)Brecht, Bertolt, 1898-1956. Teatro completo, em 12 volumes / Bertolt Brecht. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1991. (Coleo teatro ; v. 9 - 14) Traduo de: Bertolt Brecht: Gesammelte Werke in 20 Bnden. Publicados v. 1-6 1. Teatro alemo I. Ttulo. II Srie. 90-1020 CDD - 832.91

Os fuzis da Senhora Carrar Vida de Galileu.................... Me Coragem e seus filhos

ndices para catlogo sistemtico:1. Sculo 20: Teatro : Literatura alem 832.91 2. Teatro: Sculo 20: Literatura alem 832.91 Direitos adquridos pela EDITORA PAZ E TERRA S/A Rua do Triunfo, 177 01212 - So Paulo, SP Tel.: (011) 223-6522

que se reserva a propriedade desta traduo

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

1999

Vida de Galileu

Leben des Galilei Escrita em 1938-1939

Traduo: Roberto Schwarz

PERSONAGENS

Galileu Galilei Andrea Sarti Dona Sarti, governanta de Galileu e me de Andrea Ludovico Marshj, moo de famlia rica Procurador da Universidade de Pdua, Senhor Priuli Sagredo, amigo de Galileu Virgnia, filha de Galileu Federzoni, operrio polidor de lentes, colaborador de Galileu O Doge Conselheiros Cosmo O O Ode

Mdici,

Gro-Duque

de

Florena

Mestre-Sala Telogo Filsofo

O Matemtico

A Dama de Companhia Mais Velha A Dama de Companhia Mais NovaLacaio do Gro-Duque Duas Freiras Dois Soldados

A VelhaUm Prelado Gordo Dois Estudiosos Dois Monges Dois Astrnomos

Um Monge, muito estpidoO Cardeal Muito Velho Padre Cristvo Clvio, astrnomo O Pequeno Monge

Colaboradora: M. Steffin.

O Cardeal Inquisidor

Cardeal Barberini, mais tarde Papa Urbano VIII Cardeal Bellarmino Dois Secretrios Eclesisticos Duas Jovens Senhoras Filippo Mucio, um estudioso Senhor Gaffone, reitor da Universidade de Pisa O Jogral A Mulher do Jogral Vanni, um fundidor

1

GALILEU GALILEI, PROFESSOR DE MATEMTICA EM PDUA, QUER DEMONSTRAR O NOVO SISTEMA COPERNICANO DO UNIVERSOO fogo no rabo da idia pegou No ano de mil seiscentos e nove: O cientista Galileu por a + b calculou Que o Sol no se mexe. Que a Terra se move.

Um Funcionrio Um Alto Funcionrio Um Indivduo Um Monge Um Campons Um Guarda-Fronteira Um EscrivoHomens, Mulheres e Crianas

Quarto de estudo de Galileu, em Pdua; o aspecto pobre. de manh. O menino Andrea, filho da governanta, traz um copo de leite e um po.Galileu

lavando o trax, fungando alegre Ponha o leite na mesa, mas no feche os livros. Seu Galileu, minha me disse que se ns no pagarmos o leiteiro ele vai dar um crculo em volta de nossa casa e no vai mais deixar o leite. Est errado, Andrea; ele descreve um crculo.

Andrea

Galileu Andrea

Como o senhor quiser, seu Galileu. Se ns no pagarmos, ele descreve um crculo. J o oficial de justia, o seu Cambione, vem reto pra cima de ns, escolhendo qual percurso entre dois pontos? O mais curto.

Galileu

Andrea rindo Galileu

Certo. Veja o que eu trouxe para voc, ali atrs dos mapas astronmicos. Andrea pesca atrs dos mapas, de onde tira um grande modelo do sistema ptolomaico, feito de madeira.Andrea

O que isso?

Bertolt BrechtGalileu -

Vida de Galileu

57

um astrolbio; mostra como as estrelas se movem volta da Terra, segundo a opinio dos antigos. E como ?

Andrea Galileu -

Vamos investigar, e comear pelo comeo: a descrio. No meio tem uma pedra pequena. Terra.

Andrea

Galileu a Andrea Galileu -

Por fora tem cascas, uma por cima da outra. Quantas? Oito.

Andrea Galileu

So as esferas de cristal. Tem bolinhas pregadas nas cascas. - As estrelas. Tem bandeirinhas, com palavras pintadas. Que palavras? Nomes de estrelas. Quais? embaixo a Lua, o que est escrito. Mais em cima

Andrea

Galileu

Andrea Galileu Andrea Galileu -

Andrea - A bola

o Sol.Galileu

- E agora faa mover o Sol. bonito. Mas ns estamos fechados l no

Andrea move as esferas

meio.Galileu se

enxugando - , foi o que eu tambm senti, quando vi essa

coisa pela primeira vez. H mais gente que sente assim. Joga a toalha a Andrea para que ele lhe esfregue as costas. Muros e cascas, tudo parado! H dois mil anos a humanidade acredita que o Sol e as estrelas do cu giram em torno dela. O papa, os cardeais, os prncipes, os sbios, capites, comerciantes, peixeiras e crianas de escola, todos achando que esto imveis nessa bola de cristal. Mas agora ns vamos sair, Andrea, para uma grande viagem. Porque o tempo antigo acabou, e comeou um tempo novo. J faz cem anos que a humanidade est esperando alguma coisa. As cidades so es treitas, e as cabeas tambm. Superstio e peste. Mas veja o que se diz agora: se as coisas so assim, assim no ficam. Tudo se move, meu amigo. Gosto de pensar que os navios tenham sido o comeo . Desde que h memria, eles vinham se arrastando ao longo da costa, mas, de repente, deixaram a costa e exploraram os mares todos. Em nosso velho continente nasceu um boato: existem conti nentes novos. E agora que os nossos barcos navegaram at l, a risada nos continentes geral. O que se diz que o grande mar temvel uma lagoa pequena. E surgiu um grande gosto pela pesquisa da causa de todas as coisas: saber por que cai a pedra, seasoltamos, e como ela sobe, se a jogamos para cima. No h dia em que no se descubra alguma coisa. At os velhos e os surdos puxam conversa para saber das ltimas novidades. J se descobriu muita coisa, mas h mais coisas ainda que podero ser descobertas. De modo que tambm as novas geraes tm o que fazer. Em Siena, quando moo, vi uma discusso de cinco minutos sobre a melhor maneira de mover blocos de granito; em seguida, os pedreiros abandonaram uma tcnica milenar e adotaram uma disposio muito mais inteligente das cordas. Naquele lugar e naquele minuto fiquei sabendo: o tempo antigo passou, e agora um tempo novo. Logo a humanidade ter uma idia clara de sua casa, do corpo celeste que ela habita. O que est nos livros antigos no lhe basta mais. Pois onde a f teve mil anos de assento, sentou-se agora a dvida. Todo mundo diz: , est nos livros mas ns quere mos ver com nossos olhos.

58

Bertolt Brecht

Vida de GalileuGalileu . AndreaNo.

59

As verdades mais consagradas so tratadas sem cerimnia; o que era indubitvel agora posto em dvida. Em conseqn cia, formou-se um vento que levanta as tnicas brocadas dos prncipes e prelados, e pe mostra pernas gordas e pernas de palito, pernas como as nossas pernas. Mostrou-se que os cus estavam vazios, o que causou uma alegre gargalhada. Mas as guas da Terra fazem girar as novas rocas, e nos estaleiros, nas manufaturas de cordame e de velame, quinhen tas mos se movem em conjunto, organizadas de maneira nova. Predigo que a astronomia ser comentada nos mercados, ainda em tempos de nossa vida. Mesmo os filhos das peixeiras querero ir escola. Pois os habitantes de nossas cidades, sequiosos de tudo que novo, gostaro de uma astronomia nova, em que tambm a Terra se mova. O que constava que as estrelas esto presas a uma esfera de cristal para que no caiam. Agora juntamos coragem, e deixamos que flutuem livremente, sem amarras, e elas esto em grande viagem, como as nossas caravelas, sem amarras e em grande viagem. E a Terra rola alegremente em volta do Sol, e as mercadoras de peixe, os comerciantes, os prncipes e os cardeais, e mesmo o papa, rolam com ela. Uma noite bastou para que o universo perdesse o seu ponto central; na manh seguinte, tinha uma infinidade deles. De modo que agora o centro pode ser qualquer um, ou nenhum. Subitamente h muito lugar. Nossos navios viajam longe. As nossas estrelas giram no espao longnquo, e mesmo no jogo de xadrez, a torre agora atravessa o tabuleiro de lado a lado. Como diz o poeta: manh dos incios!....Andrea

Por que o senhor quer que eu entenda? muito difcil, e eu ainda no fiz onze anos, vou fazer em outubro. Mas eu quero que tambm voc entenda. para que se entendam essas coisas que eu trabalho e compro livros caros em lugar de pagar o leiteiro.

Galileu

Andrea

Mas eu vejo que o Sol de noite no est onde estava de manh. Quer dizer que ele no pode estar parado! Nunca e jamais.

Galileu

Voc v! O que que voc v? Voc no v nada! Voc arregala os olhos, e arregalar os olhos no ver. Galileu pe a bacia de ferro no centro do quarto. Bem, isto o Sol. Sente-se a. Andrea se senta na nica cadeira; Galileu est de p, atrs dele. Onde est o Sol, direita ou esquerda?

Andrea esquerda. Galileu Andrea Galileu

Como fazer para ele passar para a direita? O senhor carrega a bacia para a direita, claro.

E no tem outro jeito? Levanta Andrea e a cadeira do cho, faz meia-volta com ele. Agora, onde que o Sol est?

Andrea direita. Galileu Andrea Galileu Andrea

manh dos incios!... sopro do vento Que vem de terras novas! O senhor devia beber o seu leite, porque daqui a pouco chega gente.Galileu

E ele se moveu? Ele, no. O que que se moveu? Eu. Seu burro! A cadeira!

Voc acabou entendendo o que eu lhe expliquei ontem?

Andrea O qu? Aquela histria do Quiprnico e da rotao?

Galileu berrando Errado!

60Andrea Galileu

Bertolt Brecht

Vida de Galileu

61

Mas eu com ela! Claro. A cadeira a Terra. Voc est em cima dela.

Voltando-se para Andrea Alguma coisa ontem ns sempre compreendemos, hein?AndreaEu

Dona Sarti

que entrou para fazer a cama e assistiu cena Seu Galileu, o que o senhor est fazendo com o meu menino?

Galileu (Eu o estou ensinando a ver. Dona Sarti .Andrea Dona Sarti

falei s para ela se espantar. Mas no est certo. O senhor virou a cadeira em volta dela mesma, assim, e no assim. Faz um movimento com o brao, de cima para baixo. Seno eu tinha cado, e isso um fato. Por que o senhor no virou a cadeira para a frente? Porque da ficava provado que, se ela virasse assim, eu caa da Terra. Isso que . Mas, se eu te demonstrei...

Arrastando o menino pelo quarto?

Galileu Andrea

Deixa, mame. Voc no entende desse assunto.

Ah, ? Mas voc entende, isso? Est um moo a fora, ele quer aulas particulares. Muito bem vestido, e trouxe uma carta de recomendao. Entrega a carta. Com o senhor, o meu Andrea ainda acaba dizendo que dois mais dois so cinco. Ele confunde tudo o que o senhor diz. Ontem noite ele me provou que a Terra d volta no Sol. Est convencido de que isso fi calculado por um tal Quipmico. Galileu, o Quiprnico no calculou? Diga a ela o senhor mesmo! Mas verdade mesmo que o senhor ensina essas bobagens? Depois ele vai e fala essas coisas na escola, e os padres vm me procurar, porque ele fica dizendo coisas que so contra a religio. O senhor devia ter vergonha, senhor Galileu!

Mas esta noite eu descobri que toda noite eu ficaria pendurado de cabea para baixo, se a Terra virasse como o senhor diz. E isso um fato. Isto a Terra.

Galileu pega uma ma na mesa Bom. AndreaAh,

no, seu Galileu, no venha com esses exemplos. Assim o senhor sempre se sai bem. Voc quem sabe.

Galileu pondo a ma no lugar outra vez Andrea

AndreaSeu

Dona Sarti

Com exemplos a gente sempre leva a melhor, sendo esperto. Mas eu no posso carregar a minha me na cadeira como o senhor me carrega. O senhor est vendo que o exemplo ruim. E se a ma for a Terra, o que acontece? No acontece nada. no quer saber.

Galileu ri Voc Andrea

Galileu

tomando caf Dona Sarti, com base em nossas pesquisas e depois de intensa disputa, Andrea e eu fizemos descobertas que no podemos mais ocultar ao mundo. Comeou um tempo novo, uma grande era, em que viver ser um prazer. Sei. Espero que nesse tempo novo a gente possa pagar o leiteiro. Apontando a carta de recomendao. O senhor me faa o favor, e no mande embora esse tambm. Eu estou pensando na conta do leiteiro. Sai.vai, me deixe ao menos acabar o meu leite!

Pegue a ma de novo. Como que noite eu no fico pendurado de cabea para baixo? isto a Terra, e voc est aqui. Tira uma lasca de um toro de lenha e finca na ma. E agora a Terra gira. E agora eu estou de cabea para baixo. Por qu? Olhe com ateno. A cabea, onde est? embaixo.

GalileuBom,

Dona Sarti

Andrea Galileu

Andrea mostrando Aqui, GalileuO

Galileu rindo Vai,

qu? Gira em sentido contrrio, at a primeira posio.

62

Bertolt Brecht

Vida de GalileuGalileu

63

A cabea no est no mesmo lugar? Os ps no esto mais no cho? Quando eu viro, voc acaso fica assim? Tira e inverte a lasca.Andrea

E na Holanda o senhor ouviu dizer que na Itlia, por exemplo, aconteo eu?

Ludovico

No. E por que que eu no percebo que virou?

E como minha me deseja que eu me oriente um pouco nas cincias... Aulas particulares: dez escudos por ms. Muito bem, senhor.

GalileuPorque

voc vai junto. Voc e o ar que est em cima de voc e tudo o que est sobre a esfera. E por que parece que o Sol que sai do lugar?

Galileu

Ludovico Galileu

Andrea Galileu

Quais so os seus interesses? Cavalos.

gira novamente a ma com o graveto Debaixo de voc, voc v a Terra, sempre igual, que fica embaixo e para voc no se move. Mas agora, olhe para cima. Agora a lmpada que est em cima da sua cabea. Mas agora, se eu giro, agora o que que est sobre a sua cabea e portanto no alto?

Ludovico Galileu

Hum... Eu no tenho cabea para as cincias, senhor Galileu.

Ludovico Galileu

Andrea acompanha o giro A lareira. Galileu Andrea Galileu Andrea

Hum. Nesse caso, so quinze escudos por ms. Muito bem, senhor Galileu.

E a lmpada onde est? Embaixo. Ta.

Ludovico Galileu

As aulas sero de manh cedo. Vai ser sua custa, Andrea, no vai sobrar tempo. Voc entende, voc no paga. J estou saindo. Posso levar a ma?

Essa boa; ela vai ficar de boca aberta. Entra Ludovico Marsili, moo rico.Galileu

Andrea

Galileu Leve. Andrea sai. Ludovico

Isto aqui parece a casa da sogra. Bom-dia, meu senhor. O meu nome Ludovico Marsili. O senhor vai precisar de pacincia comigo. Principal mente porque nas cincias tudo diferente do que manda o bom senso. O senhor veja, por exemplo, aquele tubo estranho que esto vendendo em Amsterd. Eu examinei com cuidado. Um canudo de couro verde e duas lentes uma assim representa uma lente cncavae uma assimrepresenta uma lente convexa. Ouvi dizer que uma aumenta e a outra diminui. Qualquer pessoa razovel pensaria que se compensam. Errado. O tubo aumenta as coisas cinco vezes. Isso a cincia.O que que o tubo aumenta cinco vezes?

Ludovico Galileu

examinando a sua carta de recomendaoO senhor esteve na Holanda?Onde ouvi falar muito do senhor.

Ludovico Galileu Ludovico

A sua famlia tem propriedades na Campanha?

Minha me queria que eu me arejasse um pouco, visse o que acontece pelo mundo, etc.

Galileu

64Ludovico Galileu

Bertolt Brecht

Vida de Galileu

65

Torres de igrejas, pombas; tudo o que esteja longe.

O senhor mesmo viu essas coisas aumentadas? Sim, senhor.

Ludovico GalileuE

o tubo tinha duas lentes? Galileufaz um esboo nopapel. Era assim? Ludovico faz um gesto que sim. De quando essa inveno?

ganhar mil escudos. Infelizmente, o meu parecer no ser favorvel. O senhor sabe que os cursos de matemtica no garantem freqncia universidade. A matemtica, por assim dizer, no uma arte alimentcia. No que a Repblica no a tenha na mais alta conta. Embora no seja to necessria como a filosofia, nem to til quanto a teologia, aos conhecedores ela proporciona infinito prazer!Galileu

mexendo em seus papis Meu caro amigo, com quinhen tos escudos eu no vivo. Mas, senhor Galileu, o senhor tem duas horas de aula, duas vezes por semana. O seu extraordinrio prestgio lhe traz quantos alunos quiser, gente que pode pagar aulas particulares. O senhor no tem alunos particulares?

Ludovico

Quando sa da Holanda acho que no tinha mais que uns dias, ao menos de venda.

Procurador

quase amvel E por que que precisa ser a fsica e no a criao de cavalos? Entra Dona Sarti, sem que Galileu perceba.Galileu Ludovico

GalileuTenho,

Minha me acha que um pouco de cincia necessrio. Hoje todo mundo toma o seu vinho com cincia, o senhor sabe.

O senhor podia escolher uma lngua morta ou teologia. mais fcil. VDonaSarti. Bem, nos veremos tera-feira de manh. Ludovico sai.GalileuGai.ii.eii

No precisa me olhar desse jeito. Eu vou dar as aulas.

Dona Saril S

porque voc me viu a tempo. O Procurador da universidade est a fora.

demais! Eu ensino e ensino, e quando que estudo? Homem de Deus, eu no sei tudo, como os senhores da Faculdade de Filosofia. Eu sou estpido. Eli no entendo nada de nada. De modo que necessito preencher os buracos do meu saber. E quando que tenho tempo? Quando que fao pesquisa? Meu senhor, a minha cincia ainda tem fome de saber! Sobre os maiores problemas ns ainda no temos nada que seja mais do que hiptese. Mas ns exigimos provas. E como eu vou fazer progresso, se para sListentar a minha casa sou forado a me dedicar a qLialquer imbecil, desde que tenha dinheiro, enfiar na cabea dele que as paralelas se encontram no infinito?

Gat.h.f.it Faa-o entrar, que esse importante. Podem ser quinhen tos escudos. Da eu no preciso de alunos. Dona Sarti faz entrar o Procurador. Galileu aproveita para acabar de se vestir e rabiscar nmeros num papel. me empreste meio escudo. Entrega a Dona Sarti a moeda que o Procurador havia pescado em sua bolsa. Dona Sarti, mande Andrea ao oculista para comprar duas lentes; as medidas esto aqui. Dona Sarti sai com o papel.GalileuBom-dia, ProcuradorEu

Em todo caso, o senhor no esquea que a Repblica talvez no pague tanto quanto certos prncipes, mas garante a liberdade de pesquisa. Ns em Pdua admitimos at mesmo alunos protestantes. E lhes damos o diploma de doutor. Quan do provaramprovaram, senhor Galileuque Cremonini dizia coisas contra a religio, ns no s no o entregamos Inquisio, como aumentamos o salrio dele. At na Holanda se sabe qLie Veneza a Repblica onde a Inquisio no manda. E isso tem um certo valor para o senhor, que astrnomo, que trabalha numa disciplina em que h muito tempo a doutrina da Igreja no encontra mais o devido respeito!Procurador

vim tratar do seu pedido de aumento; o senhor quer

68Galileu uma besteira.Procurador

Bertolt BrechtAndrea Galileu

Vida de Galileu

69

Mas so a verdade.

O senhor chama de besteira uma coisa que encantou e espantou os cidados mais eminentes e rendeu dinheiro vista. Eu ouvi dizer que o prprio marechal Stefano Gritti capaz de tirar uma raiz quadrada com o seu instrumento! fato, milagroso! Em todo caso, o senhor me fez pensar. Talvez eu tenha alguma coisa do gnero que lhe interessa. ? Seria a soluo. Levanta-se. Galileu, ns sabemos que o senhor um grande homem. Grande, mas insatisfeito, se me permite dizer. Sou, sou insatisfeito, mais uma razo para vocs me pagarem melhor, se fossem mais inteligentes! Pois a minha insatisfao comigo mesmo. Mas, em vez disso, vocs fazem tudo para que eu fique insatisfeito com vocs. verdade, meus senhores de Veneza, que eu gosto de usar o meu engenho no seu famoso arsenal, nos estaleiro e na fundio de canhes. O arsenal pe questes minha cincia, que a levariam mais adiante, mas vocs no me do tempo de especular. Vocs amarram a boca ao boi que est trabalhando. Eu tenho quarenta e seis anos e no fiz nada que me satisfizesse. Nesse caso, eu no vou incomod-lo mais.

Mas proibiram. E nesse caso tem mais. Ns, fsicos, ainda no conseguimos provar o que julgamos certo. Mesmo a dou trina do grande Copmico ainda no est provada. Ela apenas uma hiptese. Me passe as lentes. O meio escudo no deu. Deixei o meu casaco de penhor.

GalileuDe

Andrea

Procurador

Galileu Voc vai passar o inverno sem casaco? Pausa. Galileu arruma as lentes sobre a folha em que est o esboo. Andrea Galileu

O que uma hiptese?

Galileu

quando uma coisa nos parece provvel, sem que tenha mos os fatos. Veja a Felcia, l embaixo, na frente do cesteiro, com a criana no peito. uma hiptese que ela d leite criana e que no seja o contrrio; uma hiptese enquanto eu no puder ir l, ver de perto e demonstrar. Diante das estrelas, ns somos como vermes de olhos turvos, que vem muito pouco. As velhas doutrinas, aceitas durante mil anos, esto condena das; h mais madeira na escora do que no prdio enorme que ela sustenta. Muitas leis que explicam pouco, enquanto a hiptese nova tem poucas leis que explicam muito. Mas o senhor provou tudo para mim.

Procurador

Andrea Galileu

Galileu

Obrigado. O Procurador sai. Galileu fica sozinho por alguns instantes e comea a trabalhar. Andrea entra correndo.Galileu trabalhando Por

No. Eu s mostrei que seria possvel. Voc compreende, a hiptese muito bonita e no h nada que a desminta. Eu tambm quero ser fsico, senhor Galileu.

que voc no comeu a ma?

Andrea

Andrea pra ela ver que ela gira. Galileu Andrea Galileu

GalileuAcredito,

Andrea, oua aqui, no fale aos outros de nossas idias. Por qu?Porque as autoridades proibiram.

considerando a infinidade de questes que resta esclarecer em nosso campo. Galileu foi at a janela, e olhou atravs das lentes. O seu interesse moderado. Andrea, d uma olhada.

Andrea

Virgem Maria, chegou tudo perto. O sino do campanrio, pertinho. D para ler at as letras de cobre: Gratia Dei.

70Galileu

Bertolt Brecht

Vida de GalileuSagredo

71

Isso vai nos render quinhentos escudos.

Meu velho, voc vai pagar o aougue.

Galileu , vai dar dinheiro para eles. Inclina-se outra vez.

GALILEU GALILEI ENTREGA UMA NOVA INVENO REPBLICA DE VENEZAUm grande homem no grande por igual. Mais vale comer bem que comer mal. Esta a histria mais que clara Do telescpio de Galileu, Que ele inventou que inventara.

sobe tribuna Excelncia, venerveis Conselheiros! Os caracteres venezianos iro cobrir mais uma das pginas gloriosas do grande livro das artes. Aplauso corts. Um sbio de renome mundial vos entrega aqui, e somente avs, um tubo de grande interesse comercial, para que o fabriqueis e o lanceis no mercado como melhor vos aprouver. Aplauso mais vigoroso.Procurador

Conselheiros, sua frente o doge. Ao lado, Sagredo, amigo de Galileu, e Virginia Galilei, moa de quinze anos; ela segura uma almofada de veludo, sobre a qual est uma luneta de uns sessenta centmetros, metida num estojo de couro carmesim. Galileu est sobre uma tribuna. Atrs dele, a armao para o telescpio, ao cuidado de Federzoni, o operrio polidor de lentes.Galileu

Excelncia, venerveis Conselheiros. Como professor de matemtica na vossa Universidade de Pdua, e como diretor de vosso Grande Arsenal, aqui em Veneza, considero que a nobre tarefa docente, que me foi confiada, no a minha nica misso. Procuro tambm proporcionar vantagens excepcio nais Repblica Veneziana, atravs de invenes com aplica o prtica. Com alegria profunda e toda a humildade devida, estou em condies de apresentar e entregar-vos hoje um instrumento inteiramente novo, o meu tubo tico, o telesc pio, construdo em vosso famosssimo Grande Arsenal, segun do os princpios mximos da cincia e do cristianismo, fruto de dezessete anos de paciente pesquisa de seu dedicado servidor. Galileu desce da tribuna e vai postar-se ao lado de Sagredo. Palmas. Galileu se curva.Galileu baixinho, a Sagredo

continuandoE tereis refletido, senhores, que em caso de guerra este instrumento permitir que reconheamos, duas horas antes que o inimigo nos reconhea, a espcie e o nmero das suas embarcaes, de modo que, sabedores de sua fora, decidiremos pela perseguio, pela luta ou pela fuga? Aplauso fortssimo. E agora, Excelncia, venerveis Conselheiros, o senhor Galileu vos pede que aceiteis este instrumento de sua inveno, esta prova de sua intuio, das mos de sua encantadora filha. Msica. Virginia avana, faz uma reverncia e entrega a luneta ao Procurador, que a entrega a Federzoni. Federzoni monta o instrumento no trip e ajusta as lentes. O Doge e os Conselheiros sobem tribuna e olham atravs do tubo.Procurador Galileu

baixinho muita palhaada para se agentar at o fim. Esses a pensam que esto ganhando um brinquedo lucrativo, mas muito mais. Ontem eu apontei o tubo para a Lua.O que foi que voc viu? Ela no tem luz prpria. O qu? vendo a fortaleza de Santa Rosita, senhor Galileu.

Sagredo Galileu Sagredo

Tempo perdido!

ConselheiroEstou

72

Bertolt Brecht

Vida de GalileuProcurador

73

Naquela barca ali esto almoando. peixe frito. Estou com fome.Galileu

Senhor Galileu, Sua Excelncia, o Doge. O Doge aperta a mo de Galileu. verdade, os quinhentos! Vossa Excelncia est satisfeita?

o que lhe digo. A astronomia parou h mil anos porque no havia telescpio. Senhor Galileu!

Galileu DogeEm

Conselheiro Sagredo

nossa Repblica, infelizmente, s damos alguma coisa aos sbios quando h pretexto para os nossos senadores. Mas, se no fosse assim, onde ficaria o estmulo, o senhor no acha, Galileu?

Ele est falando com voc.

Procurador

Conselheiro -

Com esse negcio a gente v bem demais. Eu vou proibir o mulherio l em casa de tomar banho no telhado. Voc sabe do que feita a Via Lctea? No. Eu sei.

Galileu Sagredo Galileu

Doge sorrindo

Precisamos de pretextos. O Doge e o Procurador conduzem Galileu em direo dos Conse lheiros, que logo o cercam. Virginia e Ludovico saem devagar. Eu me sa bem? Achei perfeito.

Virgnia

Conselheiro

Uma coisa dessas, senhor Galileu, vale bem dez escu dos. Galileu faz uma curvatura. Papai, Ludovico quer cumprimentlo.

Ludovico Virgnia

Mas o que foi? Nada. Um estojo verde talvez no fosse pior.

Virgnia trazendo Ludovico

Ludovico Virgnia

Ludovico vexado Galileu

Meus cumprimentos, senhor.

Eu acho que esto todos satisfeitos com papai.

Eu melhorei o aparelho.

Ludovico

Ludovico

Perfeitamente. O senhor fez um estojo vermelho. Na Holanda era verde.

E eu acho que estou comeando a entender alguma coisa de cincia.

Gat.it.ku vira-separa SagredoEu me pergunto at se com esse troo eu no vou provar uma certa doutrina.Sagredo

310 DE JANEIRO DE 1610. SERVINDO-SE DO TELESCPIO, GALILEU DESCOBRE FENMENOS CELESTES QUE CONFIR MAM O SISTEMA COPERNICANO. ADVERTIDO POR SEU AMIGO DAS POSSVEIS CONSEQNCIAS DE SUA PESQUI SA, GALILEU AFIRMA A SUA F NA RAZO HUMANADez de janeiro de mil seiscentos e dez: Galileu Galilei via que o cu no existia.

No seja inconveniente. seus quinhentos escudos esto garantidos, Galileu.

ProcuradorOs

Galileu sem dar-lhe ateno

claro que desconfio de concluses precipitadas. O Doge, um homem gordo e modesto, aproxima-se de Galileu e tenta falar-lhe, com dignidade.

74

Bertolt Brecht

Vida de GalileuSagredo

75

Quarto de estudos de Galileu, em Pdua. Noite. Galileu e Sagredo, metidos em grossos capotes, olham pelo telescpioSagredo

No, isso absurdo. Como pode a Terra emitir luz, com suas montanhas, suas guas e matas, e sendo um corpo frio?

olhando pelo telescpio, a meia voz Os bordos do cres cente esto irregulares, denteados e rugosos. Na parte escura, perto da faixa luminosa, h pontos de luz. Vo aparecendo, um depois do outro. A partir deles a luz se espraia, ocupa superf cies sempre maiores, onde conflui com a parte luminosa principal.E como se explicam esses pontos luminosos? No pode ser. Pode, so montanhas. Numa estrela?

GalileuDo

mesmo modo que a Lua. Porque as duas so iluminadas pelo Sol e por isso que elas brilham. O que a Lua para ns, ns somos para a Lua. Ela nos v ora como crescente, ora como semicrculo, ora como Terra cheia e ora no nos v. Portanto no h diferena entre Lua e Terra? Pelo visto, no.

Sagredo Galileu Sagredo

Galileu Sagredo Galileu

No faz dez anos que, em Roma, um homem subia fogueira. Chamava-se Giordano Bruno e afirmava exatamente isso. Claro. E agora estamos vendo. No pare de olhar, Sagredo. O que voc v que no h diferena entre cu e terra. Hoje, dez de janeiro de 1610, a humanidade registra em seu dirio: aboliu-se o cu.

Sagredo Galileu

Galileu

Montanhas enormes. Os cimos so dourados pelo sol nascente, enquanto a noite cobre os abismos em volta. Voc est vendo a luz baixar dos picos mais altos ao vale. Mas isso contradiz a astronomia inteira de dois mil anos.

Sagredo Galileu

Sagredo terrvel. GalileuE

. O que voc est vendo homem nenhum viu, alm de mim. Voc o segundo. a Lua no pode ser uma Terra, com montanhas e vales, assim como a Terra no pode ser uma estrela. Lua pode ser uma Terra com montanhas e vales e a Terra pode ser uma estrela. Um corpo celeste qualquer, um entre milhares. Olhe outra vez. A parte escura da Lua inteiramente escura? No, olhando bem eu vejo uma luz fraca, cinzenta. Essa luz o que ?

ainda descobri outra coisa, quem sabe se mais espantosa.

SagredoMas

Dona Sarti de fora O Procurador. Entra o Procurador, agitado. Procurador

GalileuA

O senhor perdoe a hora. Seria um favor se eu pudesse falar ao senhor em particular. Priuli, tudo o que eu posso ouvir, o senhor Sagredo tambm pode.

GalileuPrezado

Sagredo Galileu

ProcuradorMas

talvez no lhe seja agradvel que esse senhor oua o que aconteceu. lamentvel, uma coisa inteiramente incr vel. Por isso no, que o senhor Sagredo est habituado a ver o incrvel em minha companhia.Eu lamento, lamento. Apontando o telescpio. Ei-lo,

Galileu Sagredo ? Galileu

da Terra.

Procurador

76

Bertolt Brecht

Vida de Galileu

77

o objeto extraordinrio. O senhor pode jogar fora esse objeto, que d no mesmo. No serve para nada, absolutamente nada.Sagredo que andava para baixo epara cima, inquietoMas como? Procurador

teceles elogiam a sua mquina. Como que eu podia esperar uma coisa dessas?Galileu

O senhor sabe que este seu invento, este seu fruto de dezessete anos de pesquisa pode ser comprado em qualquer esquina da Itlia por um par de escudos? E que a fabricao holandesa? No porto, neste instante, h um cargueiro holands, descarregando quinhentos telescpios. No diga! Eu no entendo a sua calma, meu senhor.

Mais devagar, Priuli. As rotas martimas continuam longas, arriscadas e caras. Falta uma espcie de relgio seguro no cu. Uma baliza para a navegao. Pois bem, eu tenho razes para supor que certas estrelas, de movimento muito regular, podem ser acompanhadas pelo telescpio. Com mapas novos, meu caro, a marinha poderia economizar milhes de escudos.

Procurador

Gat.ii.f.u

Procurador Sagredo

Mas de que o senhor est falando? Permita-me contar que nestes dias, e por meio deste instrumento, o senhor Galileu fez descobertas inteiramente revolucionrias a respeito do mundo das estrelas. D uma olhada, Priuli.

Deixe disso. J lhe dei muito ouvido. Em troca de minha boa vontade, o senhor me fez de palhao para a cidade inteira. Eu vou passar histria como o procurador que caiu no conto do telescpio. O senhor tem por que rir, agarrou os seus quinhentos escudos, mas eu lhe digo uma coisa, e um homem honesto quem diz: esse mundo me d nojo! Sai, batendo a porta. Assim furioso, ele chega a ser simptico. Voc ouviu? Um mundo no qual no se pode fazer negcios d nojo. Voc sabia desse instrumento holands?

Galileu

Galileu rindo Procurador

Sagredo Galileu

O senhor que vai me permitir, pois a mim me basta a descoberta que fiz quando arranjei a duplicao do salrio de Galileu, em troca desse trambolho. Foi por mero acaso que os senhores do Conselho, quando olhavam pelo telescpio, achando que garantiam Repblica um instrumento que s se produziria aqui, no viram na esquina, sete vezes ampliado, um vendedor ambulante vendendo este mesmo telescpio pelo preo de um po com manteiga. Galileu d uma risada sonora.Sagredo

Meu caro senhor Priuli, talvez eu no saiba julgar o valor desse instrumento para o comrcio, mas o seu valor para a filosofia to imenso que... a filosofia! O senhor Galileu matemtico, o que ele tem que mexer com a filosofia? Senhor Galileu, o senhor inventor de uma bomba de gua muito til cidade, e o sistema de irrigao que o senhor projetou funciona. Tambm os

claro que sim, de ouvir falar. Mas o aparelho que eu constru para esses bolhas do Conselho muito melhor. Como que eu posso trabalhar com o oficial de Justia na sala? E Virginia logo, logo, precisa de um dote, ela no inteligente. Depois, eu gosto de comprar livros, e no so s livros de fsica, e gosto de comida decente. Quando como bem que me vm as melhores idias. Que tempos miserveis! Eles me pagam menos que ao cocheiro que lhes transporta os barris de vinho. Quatro feixes de lenha por duas aulas de matemtica. Agora eu agarrei quinhentos escudos, mas no d para pagar as dvidas, algumas de vinte anos. Cinco anos de sossego para as minhas pesquisas, e eu provaria tudo! Quero que voc veja mais outra coisa.

ProcuradorPara

Sagredo

hesita, antes de voltar ao telescpio O que eu sinto quase como medo, Galileu.mostrar uma das nebulosas brancas e brilhantes da

GalileuVou lhe

78

Bertolt Brecht

Vida de GalileuSagredo

79

Via Lctea. Me diga do que ela feita!Sagredo Galileu

Calma, voc pensa depressa demais!

So estrelas, incontveis.

GalileuQue

depressa nada! Acorda, rapaz! O que voc est vendo nunca ningum viu. Eles tinham razo. Quem, os copemicanos?

S na constelao de rion so quinhentas estrelas fixas. So os muitos mundos, os incontveis outros mundos, as estrelas distantes de que falava o queimado-vivo. Ele no chegou a v-las, as estrelas que esperava! Mas, mesmo que esta Terra seja uma estrela, h muita distncia at as afirmaes de Coprnico, de que ela gira em volta do Sol. No h estrela no cu que tenha outra girando sua volta. Mas em tomo da Terra gira sempre a Lua. duvido, Sagredo. Desde anteontem eu duvido. Olhe J piter acerta o telescpio junto dele esto quatro estrelas menores, que s se vem pelo telescpio. Eu as vi na segundafeira, mas no fiz muito caso da sua posio. Ontem, olhei outra vez. Jurava que todas as quatro tinham mudado de lugar. Eu tomei nota. Esto diferentes outra vez. O que isso? Se eu vi quatro. Agitado. Olhe voc! Eu vejo trs.

Sagredo Galileu

Sagredo

E o outro! O mundo todo estava contra eles e eles tinham razo. Andrea que vai gostar. Fora de si corre para a porta e grita Dona Sarti! Dona Sarti! Galileu,.voc precisa se acalmar! Sagredo, voc precisa se animar! Dona Sarti!

Sagredo Galileu Sagredo

GalileuEu

desvia o telescpio Voc quer parar de gritar como um louco?

Galileu

Voc quer parar de fazer cara de peix morto, quando a verdade foi descoberta?

Sagredo

Eu no estou fazendo cara de peixe morto, eu estou tremendo de medo de que seja mesmo verdade. O qu?

Sagredo Galileu

Galileu

A quarta onde est? Olhe as tabelas. Vamos calcular o movimentos que elas possam ter feito. Excitados, sentam-se e trabalham. O palco escurece, mas no horizonte continua-se a ver Jpiter e seus satlites. Quando o palco clareia, ainda esto sentados, usando capotes de inverno.Gat.ti.eu

Sagredo

Mas voc no tem um pouco de juzo? No percebe a situao em que fica se for verdade o que est vendo? Se voc andar por a gritando pelas feiras que a Terra uma estrela e que no o centro do universo?

Est provado. A quarta s pode ter ido para trs de Jpiter, onde ela no vista. Est a uma estrela que tem outra girando sua volta. Mas, e a esfera de cristal, em que Jpiter est fixado?

Galileu

Sim senhor, e que no o universo enorme, com todas as suas estrelas, que gira em torno de nossa Terra, que nfima o que alis era de se imaginar.

Sagredo Galileu

Sagredo

E que, portanto, s existem estrelas! E Deus, onde que fica? O que voc quer dizer? Deus, onde que fica Deus?

De fato, onde que ela ficou? Como pode Jpiter estar fixado, se h estrelas girando em sua volta? No h suporte no cu, no h ponto fixo no universo! outro sol!

Galileu Sagredo

80Gai.tif.tt

Bertolt Brecht

Vida de GalileuGalileu

81

em fria L no! Do mesmo jeito que ele no existe aqui na Terra, se houver habitantes de l que queiram ach-lo aqui!E ento onde que ele fica?

Isso inteiramente falso, uma calnia. Eu no entendo como voc possa amar a cincia, acreditando nisso. S o morto insensvel a um bom argumento! Como voc confunde a miservel esperteza deles com a razo!

Sagredo Galileu

Sagredo

Eu sou telogo? Eu sou matemtico.

SagredoAntes

de tudo voc um homem, e eu pergunto: onde est Deus no seu sistema do mundo? Em ns, ou em lugar algum. mesma fala do queimado-vivo?

Galileu

Galileu

Sagredo gritando A Galileu Sagredo

A mesma fala do queimado-vivo! Por causa dela ele foi queimado! No faz dez anos! ele no tinha como provar! Porque eles

GalileuPorque

afirmava!

Dona Sarti!Sagredo

Galileu, eu sempre o conheci como homem de juzo. Durante dezessete anos em Pdua, e durante trs anos em Pisa, pacientemente voc ensinou a centenas de alunos o sistema de Ptolomeu, que adotado pela Igreja e confirmado pela Escritura, na qual a Igreja repousa. Voc, na linha de Copmico, achava errado, mas ensinava assim mesmo. Porque eu no tinha provas. E voc acha que isso faz alguma diferena?

Eu no estou falando da esperteza. Eu sei que na hora de vender o povo chama o burro de cavalo, e chama o cavalo de burro na hora de comprar. Essa a sua esperteza. A velhinha sabida, que d mais capim sua mula porque na manh seguinte vo viajar; o navegador que prov seu barco pensando na tempestade e na calmaria; a criana que bota um bon se lhe provaram que pode chover, so esses a minha esperana. Eles usamacabea. Sim senhor, eu acredito na fora suave da razo. A longo prazo, os homens no lhe resistem, no agentam. Ningum se cala indefinidamente Galileu deixa cair uma pedra de sua mo se eu disser que a pedra que caiu no caiu. No h homem capaz disso. A seduo do argumento grande demais. Ela vence a maioria, todos, a longo prazo. Pensar um dos maiores prazeres da raa humana. senhor quer alguma coisa, seu Galileu?

Dona Sarti entrando O Galileu

Quero, quero Andrea. Andrea? Ele est na cama, dormindo.

Galileu

Dona Sarti Galileu

Sagredo incrdulo Galileu

Ser que ele no pode acordar? O senhor est precisando dele?

Dona Sarti

Faz toda a diferena. Veja aqui, Sagredo! Eu acredito no homem, e isto quer dizer que acredito na sua razo! Sem esta f eu no teria a fora de sair da cama pela manh. Ento eu vou lhe dizer uma coisa: eu no acredito nela. Quarenta anos entre os homens me ensinaram, com constn cia, que eles no so acessveis razo. Voc mostra a eles a cauda vermelha de um cometa, voc mete medo neles, e eles saem de casa e correm at acabar as pernas. Mas voc faz uma afirmao racional, prova com sete argumentos, e eles riem na sua cara.

Galileu

para mostrar uma coisa, uma coisa de que ele vai gostar. Ele vai ver uma coisa que, fora ns, ningum viu, desde que a Terra existe. outra vez?

Sagredo

Dona Sarti esse tubo Galileu

o meu tubo, Dona Sarti. E para isso eu vou acordar o menino no meio da noite?

Dona Sarti

82

Bertolt Brecht

Vida de GalileuVirgnia Galileu Virgnia

83

O senhor est bom da cabea? De noite ele precisa dormir. Mas nem por sonho eu vou acordar o menino.Galileu

Bom-dia, pai. Voc j est de p?

De jeito nenhum?

Dona Sarti De jeito nenhum. Galileu

Vou missa das seis, com Dona Sarti. Ludovico tambm vai. Como foi a noite, pai? Clara. Posso olhar?

Dona Sarti, ento a senhora mesma talvez me ajude. A senhora veja, h uma questo aqui, e ns no conseguimos chegar a um acordo, provavelmente porque lemos livros de mais. uma questo sobre o cu, uma questo a respeito das estrelas. a seguinte: o que mais provvel: que o grande gire em torno do pequeno, ou que o pequeno gire em torno do grande?

Galileu Virgnia Galileu

Pra qu? Virginia no sabe o que responder. Isso no brinquedo. No, pai.

Dona Sarti

desconfiadaEu com o senhor nunca sei. O senhor est perguntando a srio, ou est fazendo troa comigo?perguntando a srio.

Virginia Galileu

Galileu Estou Dona Sarti

Alm do mais, esse tubo uma decepo, voc vai ouvir isso em toda parte. Custa trs escudos a pela rua, j o tinham inventado na Holanda. Voc viu mais coisas novas no cu?

Bom, a resposta fcil. Sou eu que trago a comida para o senhor ou o senhor que traz para mim? a senhora que traz. Ontem estava queimada.

Virginia Galileu

Galileu Dona Sarti

E por que queimou? Porque o senhor pediu os sapatos enquanto eu estava cozinhando. No fui eu quem trouxe os sapatos?

Galileu provvel. Dona Sarti

Justamente. Porque pagar.

o senhor quem estudou e pode

Nada para voc. S umas manchinhas escuras no lado esquerdo de uma estrela grande para as quais eu preciso dar um jeito de chamar a ateno. Galileufala a Sagredo,por cima da cabea de sua filha. Acho que vou batiz-las de estrelas Medicias, em homenagem ao Gro-Duque de Florena. Fa lando sua filha Uma coisa que te interessa, Virginia: pro vavelmente nos mudamos para Florena. Eu escrevi uma carta para l, vendo se o Gro-Duque me quer para matemtico da corte. Na corte?

Virginia radiante Sagredo

Galileu

Estou vendo. De modo que no h dificuldade. Bons-dias, Dona Sarti. Sarti sai, dando risada.

Galileu!

Galileu

E gente assim no havia de entender a verdade? Eles tm fome de verdade! O sino anuncia a missa das seis. Entra Virginia, de capote, carregando um lampio com quebra-vento.

GalileuMeu

caro, eu preciso de sossego. Eu preciso de provas. Eu quero comer carne. L me dispensam de enfiar Ptolomeu na cabea de alunos particulares, e terei tempo, tempo, tempo, tempo, tempo! para elaborar as minhas provas, porque o que

84

Bertolt Brecht

Vida de GalileuGalileu

85

tenho agora no basta. Isto aqui no nada. um msero fragmento de trabalho. No coisa com que eu possa me apresentar ao mundo. Ainda no h prova alguma de que algum corpo celeste gire em tomo do Sol. Mas eu vou arranjar as provas, vou provar a todos, de Dona Sarti ao Papa. Meu nico medo que no me queiram na corte.Virgnia Galileu

Querem, sim, meu pai, com as estrelas novas e tudo.

Pois eu vou peg-los pela cabea e botar o olho deles no telescpio. Tambm os padres so gente, Sagredo. Tambm eles sucumbem seduo das provas. Copmico, no esquea disso, queria que eles acreditassem no clculo dele. Eu, eu quero apenas que eles acreditem nos prprios olhos. Quando a verdade fraca demais para se defender, ela precisa passar ofensiva. Eu vou peg-los pela cabea e voufor-los a olhar por esse telescpio. Galileu, vejo voc num caminho terrvel. uma noite desgraada a noite em que o homem v a verdade. de cegueira o momento em que ele acredita na razo da espcie humana. Quando dizemos que algum caminha lucidamente? Quando se trata de algum que caminha para a desgraa. Os poderosos no podem deixar solto algum que saiba a verdade, mesmo que seja sobre as estrelas mais distantes! Voc acha que o Papa vai ouvir a sua verdade, quando voc disser que ele errou, e que no vo ouvir que ele errou? Voc acha simplesmente que ele abre o dirio e escreve uma nota: 10de janeiro de 1610aboliuse o cu? Voc no entende? Sair da Repblica, com a verdade no bolso, para entrar na ratoeira dos padres e dos prncipes, de telescpio na mo! Dentro da sua cincia voc desconfiado, mas quanto s circunstncias que possam favorecer o exerccio dela voc crdulo como uma criana. Voc no acredita em Aristteles, mas acredita no Gro-Duque de Florena. Ainda h pouco eu o olhava quando voc olhava as novas estrelas pelo telescpio, mas o que eu via era voc de p, sobre um monte de lenha. E quando voc disse que acredita em provas, eu senti o cheiro de carne queimada. Eu amo a cincia, porm mais a voc, meu amigo. No v para Florena, Galileu!

Vai para a missa. Virginia sai. Eu raramente escrevo a grandes personagens. Passa uma carta a Sagredo. Voc acha que a carta est bem?

Sagredo

Galileu

Sagredo

l em voz alta o fim da carta que Galileu lhe entregou Pois a nada aspiro tanto como estar mais prximo de vs, do sol nascente que iluminar o nosso tempo O Gro-Duque de Florena tem nove anos de idade.

isso. Eu estou vendo que voc achou a carta servil. Eu me pergunto se ela no devia ser mais servil ainda, se no est muito formal, como se me faltasse a dedicao autntica. Uma carta comedida pode escrever quem confirma Aristteles, quem tenha esse mrito; eu no posso. Um homem como eu s de cara no cho chega a uma posio passavelmente digna. E voc sabe que eu desprezo pessoas que no tm o crebro necess rio para encher a barriga. Dona Sarti e Virginia passam pelos dois, vo missa.Sagredo Galileu Sagredo Galileu Sagredo

Galileu

Galileu, no v para Florena. Por que no? Porque l os padres mandam. Na corte de Florena h sbios de grande reputao. Lacaios.

Galileu Se eles me aceitarem, vou. A ltima pgina da carta aparece sobre uma cortina. Se dei o nome egrgio da casa de Mediei s novas estrelas que descobri, no me escapara que deuses e heris conquistam o cu estrelado para fixar a prpria glria, enquanto aqui, bem ao contrrio, o egrgio nome da casa de Mediei ir garantir vida imortal s estrelas. Eu, entretanto, que reputo grande honra ter nascido sdito de Vossa Alteza, me recomendo como um de vossos servidores mais fiis e dedicados. Pois a nada aspiro

86

Bertolt Brecht

Vida de Galileu

87

tanto como estar mais prximo de vs, do sol nascente que iluminar o nosso tempo. Galileu Galilei.

Cosmo de Mediei, seguido pelo mestre-sala e por duas damas de companhia.Cosmo

Eu quero ver o telescpio.

4GALILEU TROCOU A REPBLICA DE VENEZA PELA CORTE FLORENTINA, CUJOS SBIOS NO DO CRDITO S SUAS DESCOBERTAS FEITAS PELO TELESCPIO

O

Mestre-Sala

Vossa Alteza h de ter pacincia, at que o senhor Galileu volte da universidade com os outros senhores. Voltandosepara Dona Sarti.O senhor Galileu quer que os astrnomos examinem as estrelas que ele descobriu e batizou de Medicias. Eles no acreditam no telescpio nem um pouco. Onde que est?

Cosmo

O que velho diz: fui, sou, serei assim. O que novo diz: caia fora o que ruim.

L em cima, no quarto de estudo. O menino balana a cabea, olha a escada e, quando Dona Sarti faz que sim, sobe correndo. OMestre-Sala

Dona Sarti

Casa de Galileu em Florena. Dona Sarti arruma o quarto de estudos de Galileu para a chegada dos estudantes. O seu filho Andra, sentado, arruma os mapas estelares. Desde que chegamos a esta decantada Florena os salamaleques e a puxao no param mais. A cidade inteira desfila diante desse canudo, e quem limpa o cho depois sou eu. E no vai adiantar nada! Se essas descobertas prestassem, os padres seriam os primeiros a reconhecer. Eu passei quatro anos trabalhando em casa de monsenhor Filippo, e no acabei de limpar a biblioteca dele toda. Eram livros de couro at o teto, livros que no eram de poesia! O bom monsenhor tinha um quilo de hemorridas, de tanto ficar sentado por causa da cincia, e um homem assim no havia de saber? E essa grande visita de hoje vai ser um fiasco, de modo que amanh, para variar, no tenho coragem de olhar o leiteiro na cara. Eu que estava certa quando disse que ele devia preparar um bom jantar, oferecer um bom pedao de carneiro, antes de mostrar o telescpio. Mas no! Ela imita Galileu O que eu vou mostrar a eles melhor. Batem porta, embaixo.Dona Sarti Dona Sarti

um homem muito velhoAlteza! Volta-separa Dona Sarti A senhora acha necessrio subir? Eu estou aqui s porque o preceptor est de cama.no vai acontecer nada ao jovem senhor. O meu menino est l em cima.

Dona SartiDeixe,

Cosmo entrando Boa-noite.

Os meninos se inclinam cerimoniosamente. Pausa. Andrea volta ao seu trabalho.Andrea

muito semelhante ao seuprefessor Isto aqui parece a casa da sogra.Muita visita? Mexem em tudo, arregalam o olho e no pescam nada.

Cosmo

Andrea Cosmo

Eu entendo. esse o ...1 Aponta para o telescpio. esse. Mas no para botar o dedo.

Andrea , Cosmo

olha pela fresta da janela Meu Deus, o gro-duque j chegou. E Galileu ainda est na universidade! Desce a escada correndo, efaz entrar o Gro-Duque de Toscana,

E isso, o que ? Aponta para o modelo do sistema de Ptolomeu.

88Andrea Cosmo

Bertolt Brecht

Vida de GalileuCosmo

89

Esse o ptolomaico.

Ele mostra o movimento do Sol, no ?

Eu devolvo, mas voc devia ser um pouco mais educado, sabe? educado, voc um bobo, e d c, seno vai ter.

Andrea o que dizem. Cosmo

AndreaEducado, Cosmo

senta-se numa cadeira e pe o modelo sobre as pernas Hoje eu sa mais cedo porque o meu professor est resfriado. gostoso este lugar. andando para baixo e para cima, inquieto e incerto, examina o outro menino com olhar desconfiado; finalmen te, incapaz de resistir tentao, pesca um modelo copemicano que est detrs dos mapas Mas na verdade assim.O que assim?

Tire a mo, viu? Comeam a brigar e logo rolam no cho. Voc vai ver como se trata um modelo. Pede gua!

Andrea Cosmo Andrea

Andrea

Partiu no meio. Voc est me torcendo a mo.

Voc vai ver quem tem razo e quem no tem. Diz que ele gira, seno eu bato! No digo. Ai, seu estpido! Voc vai aprender a ser bemeducado.

Cosmo Andrea

Cosmo

apontando o modelo nas mos de Cosmo Dizem que assim, mas apontando para o seu assim que . A Terra gira em tomo do Sol, o senhor compreende?Voc acha mesmo? Est provado.

Andrea

Estpido? Quem estpido? Lutam silenciosamente. Embaixo, entram Galileu e alguns professores da universidade; atrs deles, Federzoni.

Cosmo

O Mestre-SalaMeus

Andrea Cosmo

senhores, um leve mal-estar impediu o precep tor de Sua Alteza, senhor Suri, de acompanhar Sua Alteza at aqui. Eu espero que no seja grave. No grave. Sua Alteza no veio?

No diga. Eu quero saber por que no me deixam mais ver o velho. Ontem ele ainda apareceu para o jantar. O senhor parece que no acredita, hein?

O Telogo

Andrea Cosmo Andrea

O Mestre-Sala

Como no? Acredito sim.

Galileu desapontado O Mestre-SalaSua

indicando subitamente o modelo sobre Cosmo D c, nem esse voc entende!Mas voc no precisa dos dois. D c, isso no brincadeira pra criana.

os

joelhos

de

Cosmo

Andrea

Alteza subiu. No se prendam, senhores. A corte est ansiosssima, esperando a opinio da ilustre universidade a respeito do extraordinrio instrumento do senhor Galileu e das suas maravilhosas estrelas novas. Sobem. Os meninos, cados no cho, ficam quietos. Ouviram o barulho.Cosmo

Chegaram. Deixe eu levantar.

90

Bertolt Brecht

Vida de Galileu

91

Levantam depressa.Os

Jpiter, as estrelas Medicias.Andrea

enquanto sobem No, no, est tudo perfeitamente bem.A epidemia na cidade velha no de peste, a Faculdade de Medicina excluiu essa hiptese. Com o frio que est fazendo, os miasmas no resistiriam. O pior desses casos sempre o pnico.No h nada alm de resfriados, que so comuns nesta estao do ano.No h dvida possvel.Tudo perfeitamen te bem. Saudaes no primeiro andar.SenhoresGat.it.ftt

indicando a banqueta diante do telescpio

favor

sentar

aqui.

O

Filsofo

Muito obrigado, meu filho. Mas eu receio que isso tudo no seja to simples. Senhor Galileu, antes de aplicarmos o seu famoso telescpio, gostaramos de ter o prazer de uma disputa. Assunto: possvel que tais planetas existam?

O Matemtico Uma disputa formal.Galileu

Alteza, tenho a felicidade de trazer novas vossa presena e aos senhores de vossa universidade. Cosmo faz curvaturas muito formaispara todos os lados, tambm para Andrea.

Eu achava mais simples os senhores olharem pelo telesc pio para terem certeza. Aqui, por favor.

Andrea

vendo no cho o modelo ptolomaico partido Parece que aqui h alguma coisa quebrada. Cosmo abaixa-se rapidamente e apanha o modelo, que entrega a Andrea com gesto corts. Enquanto isso, disfarando, Galileu d sumio no outro modelo.O Telogo Galileu

O

MatemticoClaro,

claro. O senhor naturalmente sabe que segun do a concepo dos antigos no possvel uma estrela que gire em volta de um centro que no seja a Terra, assim como no possvel uma estrela sem suporte no cu? Sei.

Gauleu

junto ao telescpio Como Vossa Alteza certamente sabe, j faz algum tempo que ns, astrnomos, encontramos gran des dificuldades em nossos clculos. Ns nos baseamos num sistema muito antigo, que est de acordo com a filosofia, mas infelizmente no parece estar de acordo com os fatos. Segundo esse velho sistema, o ptolomaico, supe-se que o movimento das estrelas seja muito complicado. O planeta Vnus, por exemplo, descreve um movimento, do tipo seguinte. Galileu desenha num quadro o trajeto epicclico de Vnus, de acordo com a suposioptolomaica. Mas, mesmo admitindo esses movimentos complicados, no somos capazes de calcular com preciso a posio futura das estrelas. No as encontra mos no lugar em que deveriam estar. E, alm disso, h movimentos no cu para os quais o sistema ptolomaico no tem explicao alguma. Parece-me que algumas estrelas pe quenas, descobertas por mim, descrevem esse tipo de movi mento volta do planeta Jpiter. Se os senhores estiverem de acordo, poderamos comear examinando os satlites de

O

FilsofoE

mesmo sem considerar a possibilidade de tais estrelas, que ao nosso matemtico faz uma mesura em sua direo parece duvidosa, eu gostaria de perguntar com toda a modstia e como filsofo: seriam necessrias tais estrelas? Aristotelis divini universum... Se for possvel, eu preferia que continussemos na lngua comum. O meu colega, o senhor Federzoni, no entende o latim.

Galileu

O Filsofo importante que ele nos entenda?Galileu .

O

FilsofoO

senhor me perdoe, pensei que ele fosse operrio, um polidor de lentes.

92Andrea

Bertolt Brecht

Vida de GalileuFederzoni

93

O senhor Federzoni polidor de lentes e um estudioso.

O Filsofo Obrigado, meu filho. Se o senhor Federzoni insiste.Galileu O Filsofo

O senhor acha que as estrelas Medicias esto pintadas nas lentes? O senhor est me acusando de fraude?

Sou eu quem insiste.

Galileu

O argumento perder em brilho, mas a casa sua. O universo do divino Aristteles, com as suas esferas misticamente musicais e as suas abbadas de cristal e os movimentos circulares de seus corpos e o ngulo oblquo do trajeto solar e os mistrios da tabela dos satlites e a riqueza estelar do catlogo da calota austral e a arquitetura iluminada do globo celeste, forma uma construo de tal ordem e beleza, que deveramos hesitar muito antes de perturbar essa harmonia. Vossa Alteza no quer ver as impossveis e desnecessrias estrelas atravs deste telescpio?

O Filsofo Mas de maneira alguma! Em presena de Sua Alteza OMatemtico

O seu instrumento, no sei se o chamo de seu filho, ou de filho adotivo, extremamente engenhoso, quanto a isso no h dvida!

O

Galileu

estamos inteiramente convencidos, senhor Galileu, de que nem o senhor nem ningum ousaria dar o nome egrgio da casa reinante a uma estrela cuja existncia no estivesse acima de qualquer dvida. Todos se inclinam profundamente diante do Gro-Duque.

FilsofoE

O Matemtico

No seria o caso de dizer que telescpio no qual se v o que no pode existir? O que o senhor quer dizer?

duvidoso um

Cosmo

pergunta s damas de companhiaAconteceu alguma coisa com as minhas estrelas?

Galileu

O

MatemticoSeria

to mais proveitoso, senhor Galileu, seosenhor nos desse as suas razes, as razes que o movem quando supe que na esfera mais alta do cu imutvel as estrelas possam mover-se e flutuar livremente.

AMais Velhadas Damas ao gro-duqueNo aconteceu nada s estrelas de Vossa Alteza. O que estes senhores querem saber se elas existem, se elas existem de fato. Pausa.AMais Jovem

Dizem que esse instrumento mostra at os dentes da Ursa Maior. Mostra tambm as partes do Touro.

O Filsofo Razes, senhor Galileu, razes!GalileuAs

Federzoni Galileu

razes? Mas se os olhos e as minhas anotaes mostram o fenmeno? Meu senhor, a disputa est perdendo o sentido. houvesse a certeza de que o senhor no se irritaria mais ainda, seria possvel dizer que o que est no seu tubo e o que est no cu so coisas diferentes. impossvel exprimir esse pensamento de maneira mais corts.

Meus senhores, vamos ou no vamos olhar?

O MatemticoSe

O Filsofo Claro, claro. O Matemtico Claro. Pausa. De repente, Andreafaz meia-volta e a passo rgido atraves sa o quarto inteiro para sair. D de encontro com a me, que o segura.Dona Sarti

O

Filsofo

O que foi?

94Andrea

Bertolt Brecht

Vida de GalileuFederzoni

95

Eles so burros. Livra o brao e sai correndo.

Aristteles no tinha telescpio!

O Filsofo Pobre criana.O Mestre-SalaAlteza,

O Matemtico claro que no, claro que no. OFilsofo

meus senhores, peo recordar que em menos de uma hora ter incio o baile da corte.

O

Matemtico

Enfim, que adianta estar sobre ovos? Mais cedo ou mais tarde, o senhor Galileu se habituar aos fatos. A esfera de cristal seria furada pelos planetas de Jpiter. simplssimo. senhor no vai acreditar, mas no existem as esferas de

enftico Se a inteno aqui de sujar Aristteles, uma autoridade aceita no s pela totalidade da cincia antiga como tambm pelos grandes padres da Igreja, quer me parecer suprfluo prosseguir nesta discusso. Eu recuso discusses que no tenham objetivo concreto. Para mim, chega. A verdade filha do tempo e no da autoridade. A nossa ignorncia infinita, vamos reduzi-la de um centmetro! De que vale serto esperto agora, agora que finalmente poderamos ser ao menos um pouco menos estpidos! Eu tive a felicidade inimaginvel de encontrar um instrumento novo, que permite examinar mais de perto, no muito, uma franja do universo. Os senhores deveriam aproveitar. Alteza, minhas senhoras e meus senhores, o que eu me pergunto aonde iremos chegar. Pelo que eu entendo, como cientistas no temos que perguntar aonde a verdade nos leva.

Galileu

FederzoniO

cristal. O Filsofo Existem, qualquer manual ensina isso, meu rapaz.Federzoni

Nesse caso, preciso escrever manuais novos. O

O

FilsofoAlteza,

o meu ilustre colega e eu nos apoiamos em nada menos que a autoridade do divino Aristteles ele mesmo.

Filsofo

Galileu

quase submisso Meus senhores, a f na autoridade de Aristteles uma coisa, e os fatos, que so tangveis, so outra. Os senhores dizem que segundo Aristteles h esferas de cristal l no alto; que, portanto, h movimentos que no so possveis, porque as estrelas seriam obrigadas a quebrar as esferas. Mas e se os senhores puderem constatar esses movimentos? Isso no indicaria aos senhores que essas esferas de cristal no existem? Meus senhores, eu lhes peo com toda a humildade que acreditem nos seus olhos. Meu caro Galileu, por mais antiquado que parea ao senhor, eu ainda tenho o hbito de ler Aristteles, e lhe garanto que acredito nos meus olhos quando leio.

Galileu

O

Filsofo

furioso A verdade, senhor Galileu, pode levar a muitas partes! Alteza! Nestas noites, na Itlia inteira, h telescpios voltados para o cu. As luas de Jpiter no barateiam o leite. Mas nunca foram vistas, e agora existem. O homem da rua conclui que poderiam existir muitas outras coisas tambm, se ele olhasse melhor. Vossa Alteza deve confirm-lo! Se a Itlia est atenta, no por causa do movimento de algumas estrelas distantes, mas pela notcia de que as doutrinas ditas inabalveis esto abaladas, e qualquer um sabe que o nmero delas grande demais. Meus senhores, no vamos defender doutrinas abala das! So os professores que deveriam derrub-las.

Galileu

O

Matemtico

Galileu

Eu me acostumei a ver como os senhores de todas as faculdades fecham os olhos a todos os fatos, fazendo de conta que no houve nada. Eu mostro as minhas observaes e eles sorriem, eu ofereo o meu telescpio para que vejam, e eles citam Aristteles.

Federzoni

O

Filsofo

Eu preferia que o seu ajudante no desse conselhos numa disputa cientfica.

96GalileuAlteza!

Bertolt Brecht

Vida de Galileu

97

O meu ofcio no Grande Arsenal de Veneza fazia que eu diariamente estivesse com desenhistas, construtores e ferramenteiros. No foi pouca coisa o que aprendi com essa gente. Eles no tm leitura e confiam no testemunho de seus cinco sentidos; o testemunho os leve para onde for, geralmente eles no tm medo.

NEM A PESTE INTIMIDA GALILEU, QUE PROSSEGUE EM SUAS PESQUISAS

aQuarto de estudos de Galileu, em Florena. madrugada. Galileu, com as suas anotaes, olha pelo telescpio. Entra Virginia, com uma bolsa de viagem.Galileu Virgnia

O Filsofo Oh, oh!Galileu

Como os nossos marinheiros, que h cem anos deixavam as nossas costas sem saber a que costas chegariam, se que existiam outras costas. Parece que hoje, para encontrar a sublime curiosidade que fez a glria verdadeira da velha Grcia, s indo aos estaleiros. Por tudo o que ouvimos aqui, eu no tenho dvida de que o senhor Galileu vai fazer admiradores no estaleiro.

Virginia! Aconteceu alguma coisa?

O O

O convento fechou, tivemos que voltar correndo. Em Arcetri apareceram cinco casos de peste. Sarti!

Filsofo

Galileu chama VirginiaA

estou desolado, mas esta conversao extra ordinariamente instrutiva se estendeu um pouco demais. Sua Alteza precisa repousar um pouco antes do baile da corte. A um sinal seu, o gro-uque se inclina diante de Galileu. O squito se prepara rapidamente para partir.

Mestre-SalaAlteza,

rua do Mercado foi trancada esta noite. Na Cidade Velha dizem que h dois mortos, e trs doentes esto morrendo no hospital. Para variar esconderam tudo, at no ter mais jeito. O que voc est fazendo aqui?

Galileu

barra o caminho dogro-duque e oferece um prato de doces Uma rosquinha, Alteza? A mais velha das damas de companhia leva o gro-duque para fora.Dona Sarti Galileu

Dona Sarti entrando Virginia

a peste. Meu Deus! Vou arrumar as coisas. Senta-se.

Dona Sarti Galileu

correndo atrs deles Mas bastava que os senhores olhas sem pelo instrumento!

O

Mestre-SalaSua

Alteza no deixar de submeter essas afirmaes considerao de nosso maior astrnomo vivo, o Padre Crist vo Clvio, astrnomo-chefe do Colgio Papal, em Roma.

A senhora no vai arrumar nada. Pegue Virginia e Andrea! Eu vou buscar as minhas anotaes. Vai apressado at a sua mesa e cata ospapis desordenadamente. Dona Sarti veste um capote em Andrea, que chegou correndo, e arranja um pouco de comida e roupa de cama. Entra um lacaio da corte.O Lacaio

Por motivo da doena que reina, Sua Alteza abandonou a cidade em direo a Bolonha. Insistiu, entretanto, que tam bm o senhor Galileu tivesse oportunidade de salvar-se. A calea estar diante da porta em dois minutos.

98Dona Sarti

Bertolt Brecht

Vida de Galileu

99

a Virgnia e a AndreaVocs saiam j. Aqui, levem isso

aqui.Andrea

Galileu anda para baixo e para cima. Dona Sarti volta muito plida, sem a trouxa.Galileu

Mas por qu? Se voc no disser por qu, eu no vou.

O que a senhora est esperando? A senhora quer perder o carro com as crianas?

Dona Sarti a peste, meu filho. Virgnia

Dona Sarti

Vamos esperar o meu pai. Seu Galileu, o senhor est pronto?

J foram. Precisaram segurar Virginia. Em Bolonha cuidam das crianas. Mas quem daria de comer ao senhor?

Dona Sarti Galileu

Gauleu

embrulhando o telescpio na toalha de mesa Ponha Virginia e Andrea na calea. Eu vou num minuto.senhor, sem voc ns no vamos. Voc no vai acabar nunca, se for embrulhar os seus livros. O carro est a.

Voc est maluca. Ficar na cidade para cozinhar!... Segura nas mos os seus mapas. A senhora, Dona Sarti, no pense que estou doido. Eu no posso abandonar essas observaes. Tenho inimigos poderosos e preciso acumular provas para certas afirmaes.

VirgniaNo

Dona Sarti

O senhor no precisa se desculpar. Mas razovel no .

Dona Sarti

GalileuVirginia,

seja razovel. Se vocs no andam logo o cocheiro vai embora. A peste no brincadeira.

bDiante da casa de Galileu, em Florena. Galileu sai porta e olha para a rua. Passam duas freiras.Galileu

Virginia

protestando, enquanto Dona Sarti a leva para fora com Andrea A senhora ajude a carregar os livros, seno ele no vem. chama da porta Seu Galileu! O cocheiro diz que no espera. Dona Sarti, para mim talvez no seja o caso. Est tudo em desordem, a senhora sabe, observaes de trs meses, que vo para o lixo se eu no as continuar por mais uma ou duas noites. E a epidemia est em toda parte. Seu Galileu! Venha j comigo! Voc est maluco.

Dona Sarti

dirige-se a elas As irms sabem me dizer onde compro leite? Hoje cedo a mulher do leite no veio, e minha governanta desapareceu.Mercearia aberta, agora, s na cidade baixa.

Galileu

Uma Freira Outra Freira

Dona Sarti GalileuA Dona Sarti

O senhor saiu da de dentro? Galileu faz que sim. Essa aquela rua! A duas Freiras fazem o sinal da cruz, murmuram uma ave-maria e fogem. Passa um homem.

senhora precisa ir com Virginia e Andrea. Eu vou depois.

Daqui a uma hora no sai mais ningum daqui. Voc precisa vir! Ouve. Ele est saindo! Eu vou segur-lo. Sai.

dirige-se a ele O senhor no o padeiro aqui de casa? O homem confirma. O senhor viu minha governanta? Ela deve ter sado ontem noite, hoje cedo ela no estava mais. O homem sacode a cabea.Galileu

100

Bertolt Brecht

Vida de Galileu

101

Em. frente, abre-se uma janela e aparece uma mulher.A MuLHER.gr/tenifo Corra, que essa casa est empestada!Galileu

A Velha O senhor injusto. O que que eles vo fazer?Galileu

A senhora est sozinha?

A senhora sabe alguma coisa de minha governanta?

A

VelhaEstou.

AMulherAsua

governanta caiu prostrada, lnofimdarua. Ela devia estar sabendo. Foi por isso que saiu. Que descaso pelo seme lhante! Bate a janela violentamente. Crianas descem a rua. Quando vem Galileu, fogem gritando. Galileu se volta, e aparecem dois soldados inteiramente encouraados. OsSoldados

Meufilho me mandou um recado. GraasaDeus, ele soube ontem noite que havia gente morrendo na rua e no voltou mais para casa. Essa noite, foram onze casas aqui no bairro. Estou com remorso de no ter mandado embora a minha governanta a tempo. Eu tinha um trabalho urgente, mas ela no tinha razo para ficar.

Galileu

Volte para dentro de casa! Usam lanas longas que empurram Galileupara dentro da casa. Atravancam a porta atrs dele.

A

Galileu

na janela Vocs sabem dizer o que aconteceu com a mulher?

ns no podemos ir embora. Com quem ns amos ficar? O senhor no precisa ter remorso. Ela saiu hoje cedo, s sete , eu vi. Ela estava doente, tanto que fez uma volta grande quando me viu na porta, apanhando o po. Acho que ela no queria que fechassem a sua casa. Mas eles acabam descobrindo. Ouve-se um rudo de matracas. Que isso?

Velha,

Os Soldados Vai tudo para o confinamento. A

Galileu

reaparece na janela A rua inteira, a para baixo, est empestada. Por que vocs no trancam? Os soldados fecham a rua com uma corda.Mulhermulher

A

Eles esto fazendo barulho para ver se afugentam os miasmas da peste. Galileu d uma gargalhada.Velha

A

Mas no assim, vocs esto fechando a minha casa! No fechem, aqui no h ningum doente! Parem! Parem! Mas vocs no esto vendo? Meu marido est na cidade, ele no vai poder entrar! Seus animais! Ouvem-se os seus soluos e gritos dentro da casa. Os soldados saem. Noutra janela aparece uma velha.Galileu

A Velha O senhor ainda capaz de rir! Um homem vem descendo a rua epercebe, pela corda, que a rua est fechada.GalileuOl,

amigo! Eu estou trancando aqui, e no h o que comer. O homem j fugiu. Mas vocs no podem deixar a gente morrer de fome! Ei! Ei!

Alguma coisa deve estar queimando l para trs.

Galileu

A

VelhaQuando h

alarme de peste, eles no apagam mais o fogo. S pensam na peste. Tal pai, tal filho! o sistema de governo deles. Eles cortam a gente como se fssemos o galho doente de uma figueira que no d mais fruto.

A Velha

GAT.11.Ktr

Quem sabe eles trazem alguma coisa. Seno, o senhor espere at a noite que eu deixo um jarro de leite na sua porta, se o senhor no tiver medo.

102Galileu

Bertolt BrechtGalileu

Vida de Galileu

103

Ei! Ei! Mas eles tm que ouvir! De repente aparece Andrea ao p da corda, com a cara chorosa.Galileu Andrea

Mas claro que, se eu no tivesse ficado, isso no teria acontecido. Agora eles vo ser obrigados a acreditar no senhor?

Andrea! Como que voc est aqui?

Andrea Galileu

Eu j estive aqui de manh. Eu bati na porta, mas o senhor no abriu. Me disseram que... Mas voc no foi embora na calea?

Galileu Andrea

Fui. Mas eu fugi no caminho. Virginia continuou. Eu no posso entrar?

Agora eu reuni todas as provas. Sabe, quando passar isso aqui, vou para Roma, e da eles vo ver. Dois homens, inteiramente encapotados, descem a rua. Trazem baldes e longas varas. Com as varas, entregam po a Galileu e velha, que esto na janela. A VelhaL do outro lado tem uma mulher com trs crianas. Levem qualquer coisa at l.GalileuMas

A

Velha

No, no pode. Voc vai para o convento das ursulinas. Talvez a sua me tambm esteja l. j fui. Mas no cheguei perto dela, no deixaram. Ela est muito doente. Voc andou tudo isso? Faz trs dias que voc viajou.

AndreaEu

eu no tenho o que beber. A casa est sem gua. Os dois do de ombros. Vocs voltam amanh?Homens com voz abafada pelo pano que traz sobre a boca Hoje ningum sabe o que ser amanh.

Um

dos

Galileu

Galileu AndreaEu

levei muito tempo, no fique bravo comigo. Da primeira vez eles me pegaram.

Se vocs voltarem, ser que me passam tambm um livrinho que eu preciso para o meu trabalho?

O Homem Galileu

desamparado Agora no chore mais. Descobri vrias coisas nesses dias. Voc quer que eu conte? Andrea faz que sim, soluando. Preste ateno, seno voc no entende. Voc lembra que eu lhe mostrei o planeta Vnus? No preste ateno no barulho, isso no nada. Voc lembra? Voc sabe o que eu descobri? Ele como a Lua! Ele aparece como crescente e como hemisfrio, eu vi. O que voc acha disso? Eu lhe mostro tudo, com uma esfera e uma luz. Isso prova que tambm esse planeta no tem luz prpria. Ele descreve um crculo simples em volta do Sol, no extraordinrio?No h dvida, isso um fato.

com um riso surdoQue diferena faz um livro numa hora dessas! Esse po j muita sorte.

GalileuO

menino ali, o meu aluno, vai trazer o livro, de modo que s me passar. Andrea, a tabela da rotao de Mercrio, que eu perdi. Voc vai escola e pega para mim? Os dois homens j passaram adiante.

Andrea

Pego, seu Galileu. Eu vou buscar. Sai. Tambm Galileu desaparece. A Velha sai da casa em frente e deixa um jarro porta de Galileu.

Andrea soluando

Galileu baixo Eu no pedi que ela ficasse. Andrea se cala.

104

Bertolt Brecht

Vida de Galileu

105

Forma-se um bolo de padres que, entre gargalhadas, fazem como quem se agarra ao barco em meio da tempestade.1616: O COLLEGIUM ROMANUM, INSTITUTO DE PESQUISA DO VATICANO, CONFIRMA AS DESCOBERTAS DE GALILEUViu-se o que raro se ver: Um professor que quer aprender. Clvio, servo de Deus, deu Razo a Galileu. UmSegundo Monge

Tomara que eu no caia em cima da Lua! Meus irmos, dizem que as montanhas lunares so horrivelmente pontudas! Firme o p no cho e agente.

O Primeiro Estudioso O Primeiro Monge O Prelado

E no olhem para baixo. Eu sofro de tontura.

Salo do Collegium Romanum, em Roma. noite. Altos prelados, monges e estudiosos, formando grupos. Galileu fica parte, sozinho. Reina grande animao. Antes do comeo da cena, ouvem-se gargalhadas.Um Prelado Gordo

Gordo//propositalmente em direo a Galileu No possvel, um tonto no Collegium Romanum! Grandes risadas. Pela porta de trs, entram dois astrnomos do Collegium. Silncio.

Um

MongeVocs

ainda esto estudando o caso? Isso um escnda Ns, no!

segurando a barriga de tanto rir Burrice! burrice! Eu queria saber em que que as criaturas no acre ditam!

lo!Um dos Astrnomos furioso

Um

Estudioso

Por exemplo, em que Monsenhor sinta uma repug nncia invencvel pela boa mesa. Acreditam, acreditam. S no acreditam no que razovel. Duvidam que exista o Diabo. Mas que a Terra role como um seixo na sarjeta, isso eles acreditam. Sancta simplicitas!

O Segundo AstrnomoAonde

O Prelado Gordo

vamos parar? Eu no entendo Clvio... Se fssemos acreditar em tudo que se disse nestes ltimos cinqenta anos! No ano de 1572, na esfera mais alta, na oitava, na esfera das estrelas fixas, apareceu uma estrela nova, possivel mente mais radiosa e maior que as suas vizinhas. Passa-se um ano e meio, ela desaparece, e no resta nada. razo para duvidar da durao eterna do cu imutvel? ns afrouxamos, eles ainda pem abaixo o nosso cu estrelado.

Um

Monge

fazendo de conta Ui, a Terra est virando muito, estou tonto. O senhor permite que me segure no senhor, professor? Faz como se vacilasse e se dependura num erudito. entrando no jogo A terrinha amiga hoje est inteira mente bbada. Dependura-se num terceiro. Segurem, segurem! Ns vamos cair do estribo! Eu estou dizendo para segurar! Vnus j est toda torta. Socorro! Metade da bunda dela j desapareceu!

O FilsofoSe

O Primeiro AstrnomoAonde

O

Erudito

O Monge

viemos parar! Cinco anos mais tarde, o dinamarqus Tycho Brahe definiu a rbita de um cometa. Comeava em cima da Lua, e furava, uma a uma, as esferas de cristal, os suportes materiais do movimento dos corpos celes tes! O cometa no encontra resistncia, nem a sua luz desviada. Ser razo para duvidar das esferas? Est fora de questo. Como pode Cristvo Clvio, o maior astrnomo da Itlia e da Igreja, levar a srio uma coisa dessas?

O

O Filsofo

Segundo Estudioso

106

Bertolt Brecht

Vida de Galileu

107

O Prelado Gordo Um escndalo! O OPrimeiro Astrnomo

O

Primeiro Estudioso

dirigindo-se a GalileuUma coisa sua caiu no cho, senhor Galileu. que tirara o seu seixo do bolso e estivera brincando com ele, at que finalmente casse, abaixa-se para levant-lo Para cima, Monsenhor, caiu para cima.

No pode, mas leva! Ele entrou l dentro e no tira o olho daquele tubo do inferno!

Galileu

Segundo AstrnomoPrincipiis

obstalTudo comeou porque numa poro de clculos a durao do ano solar, a data dos eclipses do Sol e da Lua, a posio dos corpos celestes ns temos utilizado as tabelas de Coprnico, que um herege. Eu pergunto o que melhor: ver o eclipse da Lua com trs dias de atraso ou no ver a salvao eterna jamais!Muito Magro avana com uma Bblia aberta, apontando o dedo fanaticamente para uma passagem A Escritura o que diz? Sol, pra quieto sobre Gibeo; e tu, Lua, sobre o vale de Ajalo. Como pode o Sol parar quieto, se ele no se move, conforme afirmam esses hereges? Ser mentira da Escritura?

O Prelado Gordo faz meia volta Impudente. Entra um CardealMuito Velho, sustentado por um Monge. Respei tosamente, os outros abrem alas. OCajrdeal

Um Monge

Um

Monge

O Primeiro Astrnomo No, e por isso que ns vamos embora. O Existem fenmenos que embaraam a as tronomia; mas ser necessrio que o homem compreenda tudo? Os dois saem.Segundo Astrnomo Monge Muito Gordo

Murro Velho Ainda esto l dentro? Ser que eles no sabem liquidar essas ninharias mais depressa? Eu suponho que esse tal Clvio entenda de astronomia! Dizem que o tal de Galileu transferiu o homem do centro do universo para algum lugar na periferia. Est claro, portanto, que ele um inimigo da humanidade! E deve ser tratado de acordo. O homem a coroa da criao, qualquer criana sabe disso, a criatura mais sublime e querida de Deus. E Deus ia pegar uma tal obra-prima, um tal esforo, para botar numa estrelinha secundria, rolando por a? Ele ia mandar seu filho para um lugar desses? Como pode haver gente perversa a ponto de acreditar nesses escravos da aritmtica! Uma criatura de Deus tolera uma coisa dessas?

O Prelado Gordo a meia voz O homem est aqui na sala. OCardeal Muito Velho

O

A ptria do gnero humano, para eles, no difere de uma estrela errante. O homem, os bichos, as plantas e o reino mineral, tudo eles enfiam na mesma carroa, tocada em crculos pelos cus vazios. Terra e cu, para eles, no existem mais. A Terra, porque uma estrela do cu, e o cu, porque composto de Terras. No h mais diferena entre o alto e o baixo, entre o eterno e o perecvel. Que ns perecemos, sabemos bem. Mas o que eles dizem que tambm o cu perece. O Sol, a Lua, as estrelas e ns, todos vivemos sobre a Terra, o que sempre se disse, e o que est escrito; mas, de acordo com esses a, tambm a Terra uma estrela. S existem estrelas! Ainda vir o dia em que eles diro: nem homens nem animais existem, o prprio homem um animal, s existem animais!

dirigindo-se a Galileu Ah, o senhor? O senhor sabe, eu no estou mais enxergando bem, mas uma coisa eu sempre enxergo: o senhor e aquele homem que ns queimamos como era o nome dele? , os senhores se parecem muitssimo.

O Monge Vossa Eminncia no deve se irritar. O mdico... OCardeal Muito Velho

livra-se do Monge efala a GalileuO senhor quer aviltar a Terra, embora viva nela e lhe deva tudo. O senhor est emporcalhando a sua prpria habitao! Mas no pense que eu vou tolerar. Empurra o Monge, e d passadas orgulhosas para l e para c. Eu no sou uma coisa qualquer, numa estrelazinha qualquer, girando por a, ningum sabe at quan

108

Bertolt Brecht

Vida de GalileuO Porteiro responde tambm cochichando

109

do. Eu piso em tetra firme, com passo seguro, ela est em repouso, o centro do universo, eu estou no centro, e o olho do Criador repousa em mim, somente em mim. Os astros e o Sol majestoso giram em tomo de mim, fixados em oito esferas de cristal; foram criados para iluminar a minha cercania, e tambm para me iluminar a mim, para que Deus me veja. visvel, portanto, e irrefutvel, que tudo depende de mim, o homem, o esforo de Deus, a criatura central, a imagem de Deus, imperecvel e ... Cai prostrado. O Monge Eminncia, o esforo foi demasiado. Nesse instante abre-se a porta dos fundos e entra o grande Clvio, frente de seus astrnomos. Atravessa a sala rpida e silenciosa mente, sem olharpara os lados, ejprximo da sada, sem deterse, fala a um monge.Clvio Ele est certo. Sai, acompanhado pelos astrnomos; a porta fica aberta atrs deles. O silncio mortal. O Cardeal Muito Velho volta a si.

Sua Eminncia o Cardeal Inquisidor. O Astrnomo conduz o Cardeal Inquisidor at o telescpio.

MAS A INQUISIO PE A DOUTRINA DE COPRNICO NO NDEX (5 DE MARO DE l6l6)Roma, a cardinalcia, Da delcia e do bom vinho, Festeja o sbio Galileu. Faz-lhe um convite, D-lhe um palpite... zinho.

O Cardeal Muito Velho O que houve? Tomaram uma deciso? Ningum ousa lhe dar a notcia.O Monge Eminncia, vamos acompanh-lo a sua casa. Sustentado por alguns, o velho sai. Todos abandonam a sala, transtornados. Um Pequeno Monge, da comisso de inqurito, pra quando passa por Galileu.

Casa do Cardeal Bellarmino, em Roma. O baile j est em meio. No vestbulo, onde dois secretrios eclesisticos jogam xadrez e tomam notas sobre os convidados, Galileu recebido com aplauso por um pequeno grupo de senhoras e senhores mascarados. Galileu vem acompanhado de Virginia e de seu noivo, Ludovico Marsili.Virgnia

Eu no vou danar com nenhum outro, Ludovico. A ala do seu vestido est solta.

Ludovico Galileu

O

Pequeno Monge

furtivamente Senhor Galileu, o Padre Clvio, quando saa, disse: Agora a vez dos telogos, eles que dem um jeito de recompor o cu! . O senhor venceu. Sai.

Gai.ilf.itprocura det-lo Ela quem venceu! No fui eu, foi a razo que venceu! O Pequeno Monge j desapareceu. Tambm Galileu vai saindo. No limiar encontra um prelado de grande estatura, o Cardeal Inquisidor, acompanhado de um astrnomo. Galileu faz uma mesura; antes de sair, faz uma pergunta cochichada ao porteiro.

Tua veste em desalinho, Tas, No a recomponhas. Outro tumulto mais fundo Respira nos meus e noutros olhos tambm. As luzes e os murmrios da sala lembram Aos convivas a noite que murmura no parque.Virgnia

Veja o meu corao. Est batendo.

Galileu pe a mo no colo dela Virgnia

Eu quero estar linda.

110

Bertolt Brecht

Vida de GalileuPrimeiro Secretrio

111

Gat.ti.fiI

bom, seno eles voltam a duvidar que ela gira.

Ludovico

E de fato ela no gira. Galileu ri. Em Roma, s se fala no senhor. Desta noite em diante, falaro de sua filha.

O primeiro carnaval depois dos anos da peste. Todas as grandes famlias da Itlia esto representadas. Os Orsini, os Villani, os Nuccolli, os Soldianeri, os Cane, os Lecchi, os Estensi, os Colombini...

que em Roma, na primavera, fcil ser belo. Mesmo eu devo estar um Adnis, um pouco encorpado. Aos Secret rios. Fiquei de esperar o senhor cardeal aqui. Ao casal Entrem, vo se divertir! Antes de passarem ao salo, pelo fundo, Virginia volta correndo.VirgniaPai,

GalileuDizem

Secretrio interrompe Suas Eminncias os Cardeais Bellarmino e Barberini. Entram o Cardeal Bellarmino e o Cardeal Barberini. Diante do rosto,presas num basto, trazem mscaras depomba e de cordei ro. Segundo Barberini

o cabeleireiro da Via Del Trionfo me atendeu assim que eu entrei; ele me passou na frente de quatro senhoras. Ele reconheceu o teu nome! Sai.

apontando Galileu com o indicador Nasce o Sol, e pese o Sol, e volta ao lugar onde nasceu. o que diz Salomo; e o que diz Galileu?

Galileu

aos secretrios que esto jogando xadrez Mas vocs ainda esto jogando xadrez pela regra velha? muito limitado. Na regra nova, as peas correm o tabuleiro todo. A torre anda assim mostra , o bispo assim e a rainha assim e assim. mais espaoso e obriga a planificar.ser, mas no corresponde modstia dos nossos salrios. Os nossos saltos nunca passam disso faz um pe queno movimento.

Gauleu

Quando eu era deste tamanho indica com a mo Eminncia, ao andar de barco, eu gritava que a praia ia embora. Hoje sei que a praia estava parada, e que o movimento era do barco.

Barberini

O

SecretrioPode

Pelo contrrio, meu caro, pelo contrrio! A melhor bota eles pagam a quem d o maior passo. preciso acompanhar os tempos, meus senhores. preciso abandonar as costas, ir para alto-mar! O Cardeal Muito Velho da cena anterior atravessa o palco, sustentado pelo seu monge. Percebe Galileu, passa por ele, e depois, incerto, volta-se para cumpriment-lo. Galileu toma as sento. Do salo de baile, cantado por meninos, ouve-se o comeo de um poema famoso sobre a fuga do tempo. Com o tempo, que tudo desbarata, Teus olhos deixaro de ser estrelas; Vers murchar no rosto as faces belas E as tranas douro converter-se em prata.Galileu Galileu

Muito, muito esperto. O que ns vemos, Bellarmino, isto , o movimento do cu estrelado, pode bem estar errado, vide barco e praia. J o que est certo, isto , o movimento da Terra, este ns no podemos perceber! bem achado. Mas as luas de Jpiter so duras de roer para os nossos astrnomos. Infeliz mente eu, noutros tempos, tambm li um pouco de astronomia, Bellarmino. Isso pega pior que sarna.

marchar com os tempos, Barberini. Se os mapas celestes, que dependem de uma hiptese nova, facilitam a vida de nossos navegantes, eles que usem os mapas. O que nos desagrada so doutrinas que tomam errada a Escritura. Ele sada algum na sala do baile.Galileu

BellarminoVamos

A Escritura. Quem retiver o gro, ser amaldioado pelo povo. Provrbios de Salomo. sbios escondem a sabedoria. Provrbios de Salomo.

BarberiniOs Galileu

Roma. Grande gala?

No havendo bois, a manjedoura permanece limpa, mas pela fora do boi a colheita abundante.

112BarberiniMelhor

Bertolt Brecht

Vida de Galileu

113

o que governa o seu esprito, do que o que toma

uma cidade.Galileu

volta, o que se v somente falsidade, crime e fraqueza. A verdade onde est?Galileu irritado Eu Barberini

Aquele cujo esprito cede, apodrecer at os ossos. Pausa. No alta a voz da verdade? algum sobre brasas sem queimar os seus ps? Bem-vindo a Roma, amigo Galileu. O senhor conhece as origens da cidade? Conta a lenda que dois meninos foram guardados e amamentados por uma loba. Desse dia em diante, todas as crianas foram obrigadas a pagar-lhe pelo leite. Ela, em compensao, providencia prazeres, celestes e terrenos; desde conversaes com o meu erudito amigo Bellarmino, at a companhia de trs ou quatro damas de reputao internaci onal. O senhor me permite apresent-las? Conduz Galileu para trs, para mostrar-lhe o salo de baile. Galileu segue, relutante. No? Ele insiste numa entrevista sria. Muito bem. O senhor est bem certo, meu caro Galileu, de que vocs astrnomos no esto querendo simplesmente tornar mais confortvel a sua astronomia? Conduz Galileu para a frente. Vocs pensam em crculos ou elipses, em velocidades unifor mes, movimentos simples que esto de acordo com o seu crebro. Mas se aprouvesse a Deus que as estrelas andassem assim? Desenha no ar um trajeto muito enredado, com velocidade irregular. O que sobraria de seus clculos? Eminncia, se Deus construsse o mundo assim repete o movimento de Barberini Ele construiria ojiosso crebro assim tambm repete o mesmo movimento de modo que reconheceramos esse mesmo movimento como o mais sim ples. Eu acredito na razo. Eu considero a razo insuficiente. Ele no responde. educado demais para dizer que a minha razo que insufici ente. Ri e volta ao parapeito. Arazo, meu amigo, no tem muito alcance. nossa

acredito na razo.

BarberiniAndar

aos Secretrios Vocs no tomem nota de nada, isto uma tertlia cientfica entre amigos.

Bellarmino

O senhor pense um pouco. Para dar sentido a um mundo desses obviamente abominvel quanto esforo, quanto estudo no gastaram os padres da Igreja e tantos outros depois deles! O senhor pense na brutalidade dos donos da terra, que mandam tocar os seus camponeses a chicote pelos cam pos, e pense na estupidez desses pobres seminus que em troca lhes beijam os ps. E uma vergonha. Na minha viagem para c eu vi...

Galileu Bellarmino

Barberini

Ns atribumos a um Ser Supremo a responsabilidade pelo sentido desses fatos que no logramos compreender e que constituem a vida dissemos que havia uma certa finalidade nessas coisas, que isso tudo obedecia a um grande plano. Ainda assim, o sossego nunca foi completo; e agora vem o senhor e diz que o Ser Supremo entendeu mal o movimento dos cus, que o senhor entendeu bem. Isso prudente?

Galileu

tomando impulso para uma explicao Eu sou um filho devoto da Igreja...

Gat.it.fu

BarberiniPessoa

incorrigvel. Ele quer provar, com toda a candura, que, em matria de astronomia, Deus escreve asneiras! Deus ento no estudou astronomia como convinha, antes de redigir a Sagrada Escritura? Caro amigo! Mesmo ao senhor, no lhe parece provvel que o Criador saiba mais que a sua criatura a respeito da criao?

Bellarmino Barberini

Galileu

Bellarmino

Mas, meus senhores, afinal, se o homem decifra mal o movimento das estrelas, pode errar tambm quando decifra a Bblia!

114Bellarmino

Bertolt Brecht

Vida de Galileu

115

Mas, meu senhor, afinal, decifrar a Bblia da compe tncia dos telogos da Santa Igreja, ou no? Galileu no responde. O senhor v, o senhor acaba no respondendo. Faz um sinal a